A História da truta no Brasil

Os salmonídeos constituem o mais importante grupo de peixes utilizados em projetos de piscicultura desenvolvidos em ambientes de água fria.

Entre as espécies desta família, a truta arco-íris é uma das mais intensamente cultivadas, apresentando populações artificiais em todos os continentes, com exceção da Antártica. A truta arcoíris constitui um modelo experimental extremamente importante, utilizado em muitos centros de pesquisa. Nos Estados Unidos é uma das principais espécies utilizadas em estudos de ecologia, genética, nutrição, patologia e toxicidade. Além disso, em virtude de sua facilidade de adaptação às condições de cativeiro, é provavelmente um dos peixes mais antigos em cultivo, com vistas à alimentação humana, sendo apenas superado pela carpa comum.

A truta arco-íris é natural dos cursos de água da cadeia costeira da América do Norte, desde o Alasca até o México. No hemisfério sul, foi introduzida com êxito na África, na América do Sul, na Austrália e na Nova Zelândia. As temperaturas consideradas ótimas para o cultivo da espécie estão dentro da faixa de 12°C e 20°C. A desova tem sido observada em temperaturas de 5°C a 13°C e há evidências de que espécimens de populações naturais não desovam em temperaturas superiores a 13°C. Na última década, novas tecnologias vêm sendo introduzidas nos programas relacionados ao cultivo e à produção da truta arco-íris. Estas tecnologias já estão trazendo contribuições significativas à criação deste peixe, refletidas no aumento da produtividade e na melhor qualidade do produto.

As primeiras ocorrências da truta no Brasil

No início do século passado, duas experiências pioneiras de incubação de ovos fecundados de trutas importadas da Europa, foram realizadas no Brasil. O principal objetivo era o povoamento dos riachos do Alto da Boa Vista, de águas frias e límpidas, consideradas adequadas para o desenvolvimento da truta no Rio de Janeiro. Para a primeira experiência, foram importados da Inglaterra (Quadro 1) 10.000 ovos fecundados de truta européia (Salmo fario), que vieram em caixas com gelo, na câmara frigorífica do navio Avon e chegaram ao Rio de Janeiro em janeiro de 1913, sendo colocados em recipientes apropriados para a incubação. Esta primeira tentativa não foi bem sucedida, pois em dez dias morreram todos os embriões.

A segunda tentativa foi realizada com ovos da truta arco-íris (Salmo irideus, hoje Oncorhynchus mykiss), cuja aclimatação foi considerada mais provável de ser obtida. Esta segunda remessa de embriões chegou ao Rio de Janeiro em maio de 1913. Contudo, devido às condições precárias da viagem, houve uma perda que atingiu cerca da metade dos ovos. A incubação dos embriões restantes foi feita instalando-se um sistema refrigerador, por onde passava a água que corria no recipiente de incubação dos ovos, obtendo-se, assim, uma temperatura favorável à sua eclosão. Esse sistema era formado por um tubo de metal de 5/8 polegadas de espessura e 15 metros de comprimento, enrolado em espiral e encerrado numa caixa de gelo com cloreto de sódio. Assim, foi possível manter a água das incubadoras numa temperatura constante entre 20°C e 21°C, resultando na obtenção de 150 alevinos, provando ser viável a eclosão de ovos de trutas no Rio de Janeiro. Estas foram as primeiras tentativas de introdução de salmonídeos realizadas no Brasil e apesar do relativo sucesso obtido na eclosão dos ovos, este trabalho não teve continuidade.

Trinta e cinco anos depois, em 1948, técnicos da Divisão de Caça e Pesca do Ministério da Agricultura, por determinação do Ministro Daniel de Carvalho, iniciaram estudos nos rios das regiões montanhosas do sudeste brasileiro, com a finalidade de se verificar as causas que levavam à carência de peixes nessas águas, bem como de se indicar as espécies mais propícias para o povoamento. O principal objetivo deste estudo era povoar os rios de regiões montanhosas para oferecer uma alternativa de pesca aos habitantes destes locais, considerados impróprios para a agricultura tradicional.

Esses trabalhos, liderados pelo Médico Veterinário Ascânio de Faria, apontaram as baixas temperaturas e os grandes desníveis verificados nesses cursos d’água, como as principais causas da falta de peixes nesses locais. Ainda, as características físicas e químicas e a grande variedade de insetos aquáticos encontradas nessas águas levaram à escolha da truta arco-íris como a espécie indicada para o peixamento desses ambientes.

Assim, com a colaboração do pescador amador Mathias Sandri, realizou-se a importação de 5.000 ovos de truta arco-íris (identificados como Salmo gairdneri irideus) procedentes de Esbjerg, na Dinamarca. Os ovos foram recebidos no dia 26 de maio de 1949, no aeroporto do Galeão e transportados para a Fazenda Califórnia, na Serra da Bocaina, Sertão do Bananal e incubados em instalações improvisadas em cochos de arraçoamento de gado. Os 3.500 alevinos resultantes foram introduzidos em poços feitos de pedra e tela de nylon, em vários pontos dos rios Jacu Pintado e Bonito. Uma enchente destruiu as instalações e arrastou esses alevinos para o sistema hídrico da região, impossibilitando a observação e o controle do desenvolvimento desses animais.

Em maio de 1950, foram introduzidos mais 50.000 ovos embrionados da mesma procedência e, desta vez, incubados no recém construído Posto de Biologia e de Criação de Trutas à margem do rio Jacu Pintado. Naquele mesmo ano foram lançados 7.500 alevinos no rio Jacu Pintado e, com a distribuição feita em outros rios da região, atingiu-se um total de 13.500 exemplares de truta colocados em ambientes naturais.

A partir de julho do ano seguinte foram colhidos relatos de moradores daquela região, sobre a subida de peixes no rio Jacu Pintado, seguida da desova em águas de suas cabeceiras. Este fato foi comprovado por Ascânio de Faria, tendo ele próprio presenciado no dia 3 de agosto de 1951, trutas em atividade de desova, no rio Jacu Pintado.

Além destas observações de desova, foram realizadas pescas experimentais por Mathias Sandri, onde foram capturados exemplares de trutas de diferentes tamanhos, mostrando a adaptação desta espécie naquela região. Desse modo, a introdução feita em 1949 é considerada como o marco da introdução da truta no Brasil, pois a partir deste lote se originaram populações “naturalizadas”.

Nos primeiros anos após a introdução da truta no Brasil, o Ministério da Agricultura foi o órgão responsável pela disseminação desta espécie no território nacional, tendo realizado sucessivas importações e peixamentos com alevinos, em várias regiões dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina, cujas características hidrológicas apresentassem condições favoráveis ao seu desenvolvimento.

Com o intuito de se promover a aclimatação da truta em Campos do Jordão, técnicos da antiga Divisão de Proteção e Produção de Peixes e Animais Silvestres do Departamento de Produção Animal (DPA) da Secretaria da Agricultura de São Paulo (hoje Instituto de Pesca), dirigidos por Pedro de Azevedo, conduziram estudos limnológicos de alguns ambientes aquáticos deste município. Em 1953 foram realizados peixamentos nesses ambientes com alevinos cedidos pela Divisão de Caça e Pesca do Ministério da Agricultura e, já em 1955, foi constatada a reprodução desses animais no rio Ferradura.

Esses resultados motivaram o DPA da Secretaria de Agricultura a construir um posto de salmonicultura em Campos do Jordão (atual Estação Experimental de Salmonicultura Dr. Ascânio de Faria), para realizar a produção de alevinos e dar continuidade ao programa de aclimatação da truta.

Durante muitos anos o posto importou ovos embrionados de truta de várias procedências, que foram incubados em suas instalações, sendo os alevinos utilizados nos peixamentos dos rios regionais e somente a partir de 1974 os ovos começaram a ser produzidos por reprodução artificial realizada no próprio posto. Também em 1974, foi instalada em Campos do Jordão, a Truticultura “Terraço Itália”, a primeira truticultura comercial do Brasil. No final desta mesma década foi iniciada a construção da Estação Nacional de Truticultura em Lages – SC.

São decorridos 53 anos da introdução da truta arco-íris no Brasil. Apesar da rápida resposta adaptativa apresentada por esta espécie nas águas frias do Brasil e dos esforços empreendidos pelos responsáveis na ocasião de sua introdução, hoje, a truta não se encontra fazendo parte da dieta alimentar da população ribeirinha conforme foi idealizado pelos seus introdutores.

Vários fatores, dentre os quais a baixa produtividade primária dos riachos de montanha, que limita o crescimento de populações naturais; a poluição das águas e a inexistência de programas de repovoamento com a participação de todos os setores envolvidos, podem ser considerados como causas que contribuíram para este fato. Contudo, o interesse demonstrado pela iniciativa privada direcionou a truta para os cultivos comerciais e, indiretamente, ela encontra-se integrada a esses ambientes, fazendo parte dos atrativos turísticos locais e gerando oportunidades de trabalho em vários empreendimentos.

O cultivo nos dias de hoje

Apesar da primeira truticultura comercial ter sido instalada no Brasil em 1974, esta modalidade de piscicultura tornou-se popular somente na década de 80. As principais causas para esta demora foram a falta da divulgação de tecnologias de cultivo, a pouca disponibilidade de ovos embrionados e alevinos e, principalmente, a falta de rações balanceadas para truta no mercado brasileiro.

Os problemas encontrados pelos criadores no cultivo desta espécie, especialmente no tocante à qualidade das rações, motivaram a fundação, em 1987, da Associação Brasileira de Truticultores (ABRAT), que hoje congrega todos os segmentos envolvidos na cadeia produtiva da truta.

A produção mundial da truta arco-íris no ano de 1997, foi calculada pela FAO/99, em 428.963 toneladas, com geração de receitas de aproximadamente 1,4 bilhão de dólares. No Brasil, não existem dados estatísticos oficiais sobre a produção e a comercialização dessa espécie. De acordo com as estimativas feitas pela ABRAT, a produção total anual é de cerca de 2.000 toneladas, o que corresponderia a 23% do consumo nacional de salmonídeos. O mercado é suprido pela importação de trutas e salmões provenientes principalmente do Chile. No ano de 2000 o Brasil importou 2,8% do total de salmonídeos exportados pelo Chile, que foi equivalente a 6.780 toneladas no valor de US$ 24.538.189,00. Deste total 205 toneladas corresponderam à truta arco-íris.

A espécie tem sido tradicionalmente comercializada na forma de “truta porção”, com peso aproximado de 250 gramas, que pode ser alcançado ao redor de 10 meses de cultivo. Sua comercialização é feita nas seguintes formas: eviscerada congelada, fresca, eviscerada resfriada, viva (para pesqueiros), filetada congelada, defumada, pré-cozida, etc., e na maioria dos casos, distribuída diretamente pelo produtor em restaurantes, super mercados, peixarias e pesqueiros, localizados principalmente nas capitais das regiões Sudeste e Sul. Além da produção nacional, este mercado absorve também, toda a truta e demais salmonídeos importados.

Atualmente existem cerca de 121 truticulturas (incluindo os pesqueiros), localizadas nos estados de: Santa Catarina (35), Rio de janeiro (32), São Paulo (25), Minas Gerais (22), Rio Grande do Sul (3), Espírito Santo (2) e Paraná (2). A maior parte dos ovos embrionados ou alevinos necessários para atender à demanda são produzidos pelos próprios criadores e pela Estação Experimental de Salmonicultura “Dr. Ascânio de Faria” em Campos do Jordão – SP, sendo pouco praticadas as novas introduções.

No tocante à disponibilidade de ovos e alevinos o setor encontra-se relativamente bem assistido, com oferta de ovos embrionados diferenciados (indicados para promover o aumento da produção e a melhoria da qualidade nos cultivos), tais como: ovos 100% fêmeas e ovos estéreis, produzidos pela Estação Experimental de Salmonicultura e, mais recentemente, ovos de verão, produzidos por um empreendimento particular localizado na Fazenda do Charco, em Delfim Moreira – MG.

Quanto à oferta de rações para trutas, existem no mercado pelo menos 5 fabricantes, cujos produtos apesar de apresentarem um bom desempenho, não atendem plenamente às exigências do setor, provavelmente em razão do reduzido porte da atividade.

Um dos principais problemas apontados pelos truticultores atualmente, é o da comercialização, cuja situação é agravada pela concorrência de produtos importados cada vez mais presentes no mercado interno. Para se ter competitividade neste caso, além do aumento da produtividade e da diversificação de produtos com valor agregado, é fundamental que se tenha qualidade certificada para que os produtos e processos da truticultura atendam aos padrões internacionais de qualidade.

Fonte:
PANORAMA DA AQUICULTUTURA - JAN/FEV - 2002 - TRUTA ARCO-ÍRIS (nº 69) - Os Brasileiros já a desejavam desde 1913 - Por: Fábio Porto-Foresti, Yara Aiko Tabata, Marcos Guilherme Rigolino, Cláudio Oliveira e Fausto Foresti
e-mail: fabio@ibb.unesp.br
Laboratório de Biologia e Genética de Peixes, IB, UNESP, Botucatu, SP.
** Instituto de Pesca, APTA, SAA, Campos do Jordão, SP.


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Vista panorâmica do sítio